novembro 05, 2003

silêncio

Ontem o meu dia não terminou da melhor maneira.

Quando eu achava que tudo estava bem, que eu até estava a ser forte ao conseguir não prolongar os problemas, etc, etc, afinal estávamos mergulhados num mar de silêncio...

A minha cabeça não parou um segundo, cheia de dúvidas, de mágoas, de irritações, muitas vezes tive vontade de abrir a boca para reclamar, para me chatear, mas ao menos para me libertar. Mas não abri.

Estava triste, magoada, mas não abri a boca. Nem quando debaixo de chuva e já de noite fui sozinha limpar a casota dos cães, nem quando fui sozinha apanhar a roupa, nem quando fui sozinha estender a roupa que estava na máquina, nem quando fui sozinha pôr mais uma máquina de roupa, nem mesmo quando antes de ir para a cama fui sozinha mais uma vez à garagem pôr a roupa acabada de lavar (camisas dele...) na máquina de secar, para que hoje a empregada pudesse passar a ferro.

Ele pôs a mesa (o jantar já tinha sido feito por mim), arrumou a cozinha (dois pratos e um tacho para a máquina) e tirou os cafés. É justo.

Estou furiosa e chata, mais pareço uma velha rezingona a cobrar tudo o que fez, sei que não deveria ser assim, mas há dias em que é demais. Pergunto-me a mim mesma como é que eles conseguem? Como é que conseguem seguir a sua vida descansados sem ver o que os rodeia? Como?

E no final de tudo, mesmo eu não tendo aberto a boca, mesmo ele não fazendo a menor ideia do que me ia na alma, a paga que tive foi alguém ao meu lado completamente frio e distante, sem um gesto de carinho, uma festa que fosse. Já na cama, as únicas palavras foram: 'vamos apagar a luz que já é tarde?'.

Droga!

Não posso, não devo e não quero ser assim. Mas o que fazer perante tamanha diferença de sentimentos, de vontades e de necessidades? Será que daqui a 30 anos vou continuar a queixar-me do mesmo? Será que vou continuar a reclamar por atenção, por algo especial e surpreendente todos os dias?

Ou será que eu é que estou mal, que não sou a companheira ideal, que não sei ter toda a paciência que devia, que não sei compreender o lado masculino dele...

Mais uma vez a eterna dúvida: até onde é possível exigir? a partir de onde é necessário ceder?

Publicado por mimi em novembro 5, 2003 12:02 PM
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